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As férias do curandeiro (Conto)

As férias do curandeiro (Conto) Por Egnaldo Araujo*

Estava tudo bem naquela grande tribo de caras pálidas, principalmente na casa do Curandeiro com sua família a crescer, crescer e crescer, vez que na última barrigada de uma de suas noras vieram três “bacurins” de uma só vez. “A felicidade existe”, é o que se notava nos rostos sorridentes do velho Page, que resolvera se aposentar de suas atividades de promover a cura de gente e bichos e passava os dias a desfilar no seu grande corcel negro, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá a acenar gostosamente para os passantes que, ao saberem que ele houvera se aposentado, mal respondiam aos acenos, às vezes o faziam apenas por consideração, afinal ali estava uma verdadeira autoridade em saúde e, parecia até iria atingir seus 100 anos com a maior facilidade. (Afinal quem cura, poderia muito bem aplicar com maiores eficiências seus remédios a si próprios). Ledo engano.

Dia de Feira

Com toda aquela gente a circular pelas barracas, a adquirirem de tudo o que se necessitava em suas habitações, como feijão, farinha, carnes e tudo o que era hortaliças. (Vale aqui explicar que essas tribos de caras pálidas do Século XXII, poucos se dedicavam ao plantio e à colheita em áreas rurais, somente a viverem nas cidades a fazerem atividades consideradas executivas, dentre outras mais simples); quando lá apareceu o velho curandeiro acompanhado de sua velha índia Poty a escolherem as frutas mais bonitas, as flores mais viçosas, dentre outras iguarias para a sua tenda, quando, sem mais nem menos ele cai de cara no chão, sem quaisquer avisos de que estaria passando mal: Morreu ali mesmo, nos braços de dois carregadores e catadores de frutas estragadas da feira, sendo a seguir transportado para a sua tenda/tribo, onde, depois de pranteado, foi enterrado, com choros e velas, ao som de uma solitária gaita de boca a solar o Hino ao Senhor do Bonfim.

A curtição final

Sem nem saber de seu futuro, mas, quiçá já desconfiava, o velho curandeiro, ao lado de sua velha índia Poty, passara os últimos três anos de sua vida a viajar pelo mundo todo, como Rússia, Tchecsloswaquia; Turquia; Camaçari, Dias Dávila e Feira de Santana, sua terra tribal natal. Eu mesmo, índio de pouca representação tribal, recebi vários convites, que não tinha condições financeiras de aceitar, para acompanhar nas suas longas viagens, o amistoso curandeiro feliz e bem apessoado, por assim dizer, com filhos criados e bem de vida; ele com sua grande tenda armada na vila; Corcel bem arriado à porta com sela e bridas enfeitadas com adornos de prata e ouro branco que, para sair tinha ele que por uma capa colonial, chapéu de caubói e esporas tilintando de brilhantes. Aqui abro um parêntesis para me lembrar de uma recomendação de uma velha anciã: “Boa romaria faz, quem em sua casa fica em Paz.”!

“E assim, se passaram dez anos, seu ver teu rosto, sem olhar teus olhos, sem beijar teus lábioooossss”, essa era a música que simultâneamente tocava num botequim ao lado do cemitério indígena, quando o corpo do velho Pagé, o médico Antônio Aurélio Sampaio, que tirou férias eternas ao baixar à sepultura no Jardim da Saudade, onde o meu burro empacou e não havia jeito de tirar o bicho de lá: Cruz credo, seria um prenúncio, um mau presságio.

*Egnaldo Araújo é jornalista - DRT – 4230 - DF.

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