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Considerações sobre o Rio Vermelho

Por João Dell'Aglio

Considerações sobre o Rio Vermelho (artigo)
Foto Rio Vermelho Antigo

De vez em quando, e principalmente em dias chuvosos como estes que nos castigam faz tempo, uma sensação nostálgica toma conta de mim e me deixa, digamos, completamente fragilizado. Emoções à flor da pele. Não sei de onde vem esta tal de nostalgia, só sei pra onde me leva: para as lembranças de velhos tempos que não voltam mais.

É quando eu me permito mergulhar em releituras de obras que me emocionaram em alguns momentos de minha existência, e este exercício me faz lembrar passagens felizes ou até mesmo tristes, ao mesmo tempo que, estas mesmas lembranças, me fazem refletir sobre o presente, porque o futuro, como diria a minha avó, a Deus pertence. Não importa. O que vale mesmo é sonhar acordado com os tempos já vividos – e muito bem vividos - e tocar a vida com alegria e esperança de um mundo melhor, apesar dos pesares.

Agora mesmo, por exemplo, acabo de reler o livro de um caríssimo ex-vizinho que foi morar lá pelas bandas de Lauro de Freitas. Foi a partir de uma dedicatória, a mim dirigida, onde ele afirma desejar “morrer no bairro soteropolitano do Rio Vermelho”, que me levou a prestar mais atenção ao que acontece nesse pedaço de chão tão exclusivo, com seus encantos, desencantos e contradições.

Resolvi, então, como forma de reverenciar o bairro, escrever esta singela crônica, até mesmo para colocar o leitor a par de algumas poucas curiosidades sobre o Rio Vermelho. Vamos lá:

O lado boêmio e sensual do bairro convive harmoniosamente com o mais puro conceito de tradição e compostura quase que medieval por parte de alguns antigos moradores, comandados pelo simpático pároco da igreja local que insiste em passear pelas ruas trajando uma apavorante batina preta (aliás, faz tempo que não o vejo perambulando por aí).

No Rio Vermelho, casarios antigos, alguns bem conservados e outros nem tanto, interagem com bares e restaurantes, alguns luxuosos e muitos nem tanto, que abrigam tribos das mais diversas correntes de pensamentos e atitudes. São intelectuais e patricinhas, jovens e idosos, héteros, metro e homossexuais, todos convivendo, em noites quase que infindas, na mais perfeita harmonia, se batendo respeitosamente pelas calçadas estreitas do lugar, mas cada qual, no fim das contas, frequentando o seu espaço previamente determinado.

O Rio Vermelho foi e continua sendo o lar de muitos artistas. O lugar exala arte em todos os cantos por onde se anda. Rola de tudo e muito mais nesta porção abençoada de terra - um microcosmo único cravado bem no meio da Cidade do Salvador.

Foi neste bairro um tanto quanto mágico que o grande escritor Jorge, o amado, morou a maior parte de sua vida com a também escritora e mui amada Zélia Gattai - talvez a mais meiga e generosa escritora que esse país já conheceu. As cinzas do casal agora repousam no jardim da casa da Rua Alagoinhas, hoje transformada no fantástico Memorial Casa do Rio Vermelho, visita obrigatória para quem aprecia arte em todas as suas vertentes.

O sincretismo religioso, como não poderia deixar de ser, está presente em uma das mais tradicionais festas da Bahia. Trata-se da linda festa de Iemanjá, que acontece no dia dois de fevereiro. O dia é reservado para que os pescadores do lugar possam agradecer as boas energias emanadas pela Mãe D’Água, e para que fiéis, com suas crenças religiosas as mais diversas, possam oferecer presentes à Iemanjá em sinal de agradecimento, segundo afirmam, por alguma graça alcançada em suas vidas ou nas vidas de quem amam.

Existem várias versões que tentam explicar a origem da festa, uma delas (história de pescador?) é a de que no local, hoje chamado Pedra da Sereia, havia uma gruta, parecida com uma casa, onde os pescadores deixavam os presentes em cestas de vime. Eles costumavam chamá-la de Casa da Mãe D’água. Só aqueles balaios lotados de oferendas são “arriados” - como dizem os típicos fiéis - no fundo do mar.

O fato negativo da festa é que hoje, infelizmente, a homenagem à Rainha das Águas tornou-se o retrato da separação social que impera na cidade. Os ricos se divertem em camarotes cheios de mordomias e os pobres passam o dia inteiro se espremendo e suando no asfalto, debaixo do escaldante sol do verão de Salvador.

É também no Rio Vermelho que as baianas mais famosas da cidade montaram suas barracas de acarajé. As bancas da Dinha e da Cira são disputadas pelos soteropolitanos de todos os cantos e por turistas oriundos das mais diversas partes do mundo. Muitas vezes são até motivo de discussões (no bom sentido) pelos amantes da iguaria. Cada qual tem a sua preferida, mas, como gosto não se discute, no final das contas, tudo acaba em pagode ou axé, de preferência no Mercado do Peixe.

Ainda podem-se encontrar figuras marcantes no bairro, como é o caso do dono de um dos bares mais aconchegantes da região, o Nando’s. O proprietário não se preocupa com o faturamento. Abre quando quer e só permite a entrada de quem quer. Vale a pena conhecer, mesmo que você seja barrado, categoricamente, com a afirmação de que a cerveja acabou.

Assim, as tribos do Rio Vermelho vão levando a vida. Semelhante aos boêmios, diferente de tantos religiosos, desigual aos vendedores ambulantes, boba aos roqueiros, anacrônica aos clubbers, divergente dos pescadores, mas compartilhadas no mesmo lugar.

Só falta mesmo o meu ex-vizinho tomar vergonha na cara e voltar, vivo da Silva Sampaio, ao seu reduto. Estamos esperando ansiosos, de braços abertos e com uma cerveja bem gelada em cada mão. Tenho a plena certeza que todo o Rio Vermelho agradecerá.

6 comentários:

  1. Gostei muito dessas considerações, mais moradores poderia aproveitar a ideia e escrever sobre o bairro. Parabéns!

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  2. O Blog do Rio Vermelho daria espaço ao depoimento daqueles que trabalham no bairro?

    https://www.youtube.com/watch?v=dAamYnrroCQ&feature=youtu.be

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    1. É evidente, o Blog é feito pelos moradores e todos têm espaço

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  3. Senhor João Dell'Aglio - Eu estou sempre acompanhando o Blog do Rio Vermelho. Aliás, desde os seus primeiros dias de vida. Eu o vi nascer e prosperar. ... Sou um velho morador do Rio Vermelho, . No momento, estou no Parque Cruz Aguiar ( 54 anos no mesmo endereço ) mas a minha infância boa parte dela, aconteceu onde hoje chamam de rua Pedra da Sereia. Morava com o meu avô Pasquale De Chirico e passava os dias inteirinhos sobre aquelas pedras tirando pinaunas, pescando, ou correndo das explosões na pedreira. Havia, realmente , naquela época , no fim da rua , uma pedreira que estava sendo explorada, onde existia , a chamada " Pedra da Sereia " com uma gruta muito bonita e a pedra parecia " polida prelo mar " - Era a gruta da Sereia " que pouca gente conhecia , praticamente escondida , lá no sopé do morro. Me chamou a atenção sua menção à Gruta da Sereia e eu desejo saber se é exatamente esta a que se refere na sua crônica. Hoje, não existe mais, pois desapareceu com a exploração da pedreira. Como sabe, durante muito tempo, muitas e muitas construções em Salvador eram realizadas com pedra bruta. . O que sobrou , depois do fim da exploração , foi apenas um espaço e hoje se pode, de lá , ver o Rio Vermelho e identificar " o outro lado com o Pestana Hotel .... Costumo passar por lá de vez em quando. Recordações de infância ... Desde que abri os olhos para o mundo, que rolo pelo Rio Vermelho . Aquela casa onde morou Caymmi ,foi construída pelo meu avô e era nela que nós morávamos... Isso tem uma história de mais de 80 anos...Penso que a gruta da Sereia a que se referiu é a mesma em que eu brincava na minha infancia...

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    1. Prezado vizinho Sarnelli, infelizmente eu não tenho condições de esclarecer a sua dúvida. Confesso que não me aprofundei na história da gruta da sereia para escrever o texto, pois, por se tratar de uma crônica despretensiosa, não vislumbrei tal necessidade. Fiz apenas uma pesquisa superficial em sites confiáveis. Fica aqui o meu respeito ao mesmo tempo que peço desculpas por não ter podido responder ao seu justo questionamento.

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  4. Estimado João Dell'Aglio - agradeço a sua atenção , que acabou cumprindo a finalidade e esclarecendo a " nossa" dúvida. Efetivamente, chego à conclusão de que, por aqui, só existiu mesmo a " gruta da sereia " que desapareceu com o fim da exploração da pedreira a que me referi .O vazio deixado pela exploração da pedreira é visível da praia de Santana. É só olhar para lado do morro da Paciência. Se alguém mais tem outras informações, podem se manifestar .Percebo que somos vizinhos. Um abraço.

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