Documentário baiano “Entre a Caneta e o Poder” vence FestCine Pedra Azul

Os aplausos vieram antes do prêmio. E talvez tenham sido o primeiro sinal de que, longe da Bahia e diante de uma plateia que não conhecia suas personagens, “Entre a Caneta e o Poder: Mulheres no Jornalismo da Bahia” havia encontrado seu público.

A exibição no 8º FestCine Pedra Azul terminou com aplausos de pé, abraços e cumprimentos às jornalistas presentes. Entre os espectadores estavam realizadores, artistas e profissionais do audiovisual. Alguns contaram ter se emocionado; houve quem confessasse ter chorado.

Horas depois, viria uma emoção que as protagonistas não haviam incluído nem nas previsões mais otimistas: o documentário dirigido por Daniel Talento foi anunciado vencedor da categoria Documentário Mostra Brasil, recebendo o Troféu Rota do Lagarto.

O festival foi realizado nos dias 25 e 26 de setembro, no Hotel Vista Azul, em Pedra Azul, distrito de Domingos Martins, na região serrana do Espírito Santo. A oitava edição homenageou as atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes e reuniu realizadores brasileiros e estrangeiros. Segundo dados divulgados pela organização, 1.580 filmes de 98 países foram inscritos nesta edição.

“Furando a bolha”

Para Daniel Talento, o prêmio ajuda a romper um silêncio que vai além do próprio filme. “O que pega mais forte é saber que a história dessas mulheres baianas, jornalistas incríveis, que bateram de frente com o machismo das redações e com a violência da ditadura, está furando a bolha. É sobre furar o bloqueio histórico”, afirma. Para o diretor, a premiação amplia as possibilidades de circulação do documentário e joga luz sobre uma memória que, durante muito tempo, permaneceu abafada.

Ao comemorar a conquista, Daniel divide o prêmio com quem ajudou a levar essa história à tela. Agradece à Arpoador Audiovisual, à Érica Lotti e a toda a equipe envolvida na produção. “É por isso que a gente filma”, resume.

A produtora executiva Karen Zardi amplia esse reconhecimento para o trabalho construído nos bastidores. Para ela, “cada detalhe transparece cuidado”. Direção, fotografia, montagem e sonorização, destaca, carregam uma delicadeza que valoriza ainda mais as trajetórias retratadas.

Produzido pela Tia Maria Filmes, em coprodução com a Arpoador Audiovisual, “Entre a Caneta e o Poder” recupera um capítulo da história da imprensa baiana: a entrada das mulheres em espaços das redações até então ocupados majoritariamente por homens. A partir da década de 1970, em plena ditadura militar, uma geração de jornalistas começou a avançar sobre editorias como política, polícia, economia e esporte. Além da censura imposta à imprensa, essas profissionais encontraram outra barreira dentro das próprias redações: uma divisão de espaços que também passava pelo gênero. É essa transformação que ganha rosto e voz nos depoimentos de Carmela Talento, Mariluce Moura, Joana D’Arck, Isabel Santos, Mônica Bichara e Jaciara Santos. As lembranças pessoais estão presentes no filme, mas ajudam a contar uma história maior: a conquista, pelas mulheres, de lugares de prestígio, decisão e poder no jornalismo.

A história de Carmela Talento, mãe de Daniel, já aproximava o diretor daquele universo antes mesmo do filme.

Carmela lembra que recebeu com alguma resistência a proposta de ser entrevistada pelo filho. Achava que tinha pouco a acrescentar e adiou o depoimento enquanto pôde. Depois que o jornalista Emiliano José escreve 'As comadres estão chegando" que incluía um depoimento dela, percebeu que não tinha razão para ficar de fora do Documentário que o filho estava planejando realizar há muito tempo . Para ela, Daniel reuniu uma equipe tão obstinada quanto ele e construiu um filme marcado pela “sensibilidade e verdade” — qualidades que considera determinantes para a premiação

Em Pedra Azul, quatro das seis protagonistas — Joana D’Arck, Isabel Santos, Mônica Bichara e Jaciara Santos — acompanharam a exibição e a cerimônia de premiação. Também esteve presente a produtora executiva Karen Zardi, representando Daniel Talento, que acompanhou à distância o resultado do festival. Carmela Talento e Mariluce Moura não puderam comparecer.

 Outros festivais

A reação do público deu à passagem por Pedra Azul um significado particular. Na pré-estreia em Salvador, realizada diante de muitos amigos, familiares e colegas de profissão, a emoção carregava também a proximidade com as personagens e com a história narrada. No festival, o encontro era outro. A maioria dos espectadores não conhecia aquelas mulheres nem havia compartilhado o universo das redações baianas retratado na tela.

Ainda assim, o filme encontrou reconhecimento. Primeiro, na resposta da plateia. Depois, na decisão do júri.

 Karen Zardi acompanhou essa reação de perto. “É impossível não se emocionar. O filme foi aplaudido de pé em sua exibição, numa demonstração do quanto essas histórias tocam e inspiram”, afirma. Para a produtora executiva, direção, fotografia, montagem e sonorização revelam o cuidado com que as trajetórias foram levadas à tela.

O prêmio acrescenta um novo capítulo à trajetória de “Entre a Caneta e o Poder”, que este ano já havia ultrapassado as fronteiras brasileiras. Em maio, o longa foi selecionado para o ICJ International Film Award 2026, na Ucrânia, entre mais de 2.500 obras de diferentes países, e passou a integrar o programa Cinema nas Escolas, com exibições previstas em cem instituições de ensino ucranianas.

No Brasil, também foi selecionado para o Panorama Estadual da 9ª Mostra Sesc de Cinema, representando a Bahia.

De São Paulo, onde vive há quase quatro décadas, Mariluce Moura recebeu com alegria a notícia da premiação. Ao recordar sua participação no filme, volta à manhã em que Daniel apareceu em seu apartamento com câmera, som e luz e a colocou diante das próprias lembranças. “Eu ainda sonolenta, me pôs a falar — não me deixou escapar!”, conta. Algumas dessas memórias eram dolorosas, reconhece, mas participar do documentário acabou se tornando, em suas palavras, uma “aventura plenamente vitoriosa”.

Em Pedra Azul, uma história nascida entre máquinas de escrever, laudas, telefones, censores e fechamentos encontrou espectadores que não viveram aquele tempo. E mulheres que décadas atrás ajudaram a abrir portas nas redações viram essa memória ocupar outro espaço.

Desta vez, premiada na tela do cinema.

 

VENCEDORES 8º FESTCINE PEDRA AZUL

FILMES INTERNACIONAIS

ANIMAÇÃO INTERNACIONAL

“JUNGLE RACE”

FRANÇA

Direção - Nathan STEFEN, Thomas MARSAUDON, Tristan FORCHERON, Justine PERRIN,

Loïc NOAILHAT, Charles LARDENOIS, Cyprien COTTON, Ezvin MANHES, Quentin

STEINHILBER, Camille TESSIER

DOCUMENTÁRIO INTERNACIONAL

“COMME TOUT LE MONDE”

FRANÇA

Direção - Mohammed KHOUADJA e Pierre Etienne LEONARD

CURTA-METRAGEM INTERNACIONAL

“EL ÚLTIMO ALIENTO”

MÉXICO

Direção - Octavio Maya Rocha

LONGA-METRAGEM INTERNACIONAL

“THE END OF THE RIVER”

BULGÁRIA

Direção - VASIL STEPANOV BARKOV

 

 FILMES NACIONAIS

ANIMAÇÃO MOSTRA BRASIL

“BICICLETA VERMELHA”

Direção - Rodolpho Pinotti

DOCUMENTÁRIO MOSTRA BRASIL

“ ENTRE A CANETA E O PODER: MULHERES NO JORNALISMO DA BAHIA”

Direção - Daniel Talento

CURTA-METRAGEM MOSTRA BRASIL

MELHOR ATOR: BRUNO ENZO - FILME “OS PEDAIS DE PEDRO”

MELHOR ATRIZ: ISABELA ROSA - FILME “EM TRANSE”

MELHOR ROTEIRO: Marton Olympio - FILME “MEMÓRIAS COM VISTA PRO MAR”

MELHOR DIREÇÃO: Vinícius di Castro - FILME “OS PEDAIS DE PEDRO”

MELHOR FILME: “OS PEDAIS DE PEDRO”

Direção - Vinícius di Castro

LONGA-METRAGEM MOSTRA BRASIL

MELHOR ATOR: GREGORIO BENEVIDES - FILME “CASEBRE”

MELHOR ATRIZ: ÁUREA MARANHÃO - FILME “TERRA DEVASTADA”

MELHOR ROTEIRO: LAMARCK DIAS DIAS - FILME “UMA VOZ CHAMADA FRANCISCA”

MELHOR DIREÇÃO: Henrique Raynal - FILME “CASEBRE”

MELHOR FILME: “CASEBRE” (BRASÍLIA, DF – BRASIL)

Direção – Henrique Raynal

Fonte / Foto: Assessoria de Imprensa

Postar um comentário

0 Comentários
* Os comentários publicados são de inteira responsabilidade do autor. Comentários anônimos (perfis falsos ou não) ou que firam leis, princípios éticos e morais serão excluídos sumariamente bem como, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos e agressivos, não serão admitidos.