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Yemanjá não é uma sereia

Por Biaggio Talento

Muita gente cultua Yemanjá na tradicional festa do 2 de Fevereiro, no bairro do Rio Vermelho, pensando tratar-se de uma entidade exclusivamente africana. O antropólogo Edison Carneiro, num texto de 1950, incluído no livro Ladinos e Crioulos, mostra que isso não é verdade. Sua análise, esclarecedora, indica que desde o final do século XIX, o que se cultua na Bahia é uma entidade brasileira, sincrética, que reúne elementos, sim da cultura africana, mas também ameríndia e européia. A confusão mais flagrante é a incorporação da sereia, elemento sobrenatural da Europa com a orixá nagô de Yemanjá. São duas entidades completamente contraditórias que convivem numa mesma figura. Ele lembra que sereia “é a mulher fatal, que com o seu amor traz a morte”. Vide as agruras que Ulisses e seus marujos passaram ao retornar de Tróia, quando o barco dos argonautas passou perto da ilha das sereias, cujo canto levava os homens a se jogarem no mar em busca da própria destruição. Ao contrario das feiticeiras marítimas, Yemanjá é a representação da fecundidade, a reprodução da espécie e nem aparece na água salgada. Nada melhor, então, que conferir o texto de Edison Carneiro que reproduzimos a seguir:

YEMANJÁ E A MÃE-D’ÁGUA

Escritores, pintores, músicos e elementos populares em geral tem contribuído poderosamente, por um lado, para dar o nome Yemanjá à mãe-d’água brasileira e, por outro lado, para tornar as festas em seu louvor uma simples reprodução das festas da sereia européia. Bem entendido, Yemanjá é uma deusa nagô e de modo algum uma concepção de todas as tribos negras chegadas ao Brasil. Sabemos que ao povo nagô se pode atribuir grande parte da nossa mística popular, nos mais variados graus de fidelidade com o original. Parece extraordinário porém, que as diferenças fundamentais que facilmente podemos encontrar entre Yemanjá e a sereia fossem postas de lado tão sumariamente, até cair no dualismo apontado – nome africano, festas européias. Como já o indicou Joaquim Ribeiro, há nesse caso, “uma interseção de vários cultos” das águas, como o da Iara dos índios. Não devemos esquecer que os nagôs não rendem culto público, fora de portas, a Yemanjá e, certamente, não deixaram essa tradição. Pelo contrário, nos candomblés baianos, que são como tentei provar, resultado das concepções religiosas dos nagôs, até mesmo o “assento” de Yemanjá se encontra, obrigatoriamente, no interior da casa. Parece que, como em tantos outros casos, a mítica nagô, passando a outros grupos de cultura, brancos e negros, se deturpou consideravelmente, de maneira a ficar apenas o nome Yemanjá cobrindo concepções, festas e costumes que são caracteristicamente estranhos à África – e em especial ao povo nagô.

Talvez seja antiga essa confusão.


Nina Rodrigues, em 1897, notava que “em geral a concepção de Yemanjá confunde-se com o mito da sereia de que se torna uma simples variante” e mais tarde, em Os africanos no Brasil, afirmava que “o mito de Yemanjá se confunde com o da mãe-d’água e o da sereia sob cuja forma e efígie a representam”. Isto acontece hoje em todos os candomblés, em que a figura de Yemanjá muitas vezes é a dá mulher branca, a pentear seus longos cabelos, mas já acontecia também em 1899, por sinal que no famoso candomblé do Gantois da Bahia, onde Nina Rodrigues pôde encontrar “duas sereias de gesso barato, mandadas vir do Rio de Janeiro”, representando Yemanjá e outra divindade das águas, Oxún (sic). Por sua vez, Manuel Querino lembra a festa que, na terceira dominga de dezembro, a gente dos candomblés realizava diante do forte de São Bartolomeu, na cidade do Salvador, sob a direção do Tio Ataré, enchendo-se uma grande talha de barro, que se atirava ao mar, com “pentes, frascos de pomada, frascos de cheiro, côvados de fazenda” presenteados por centenas de africanos.

Isso não impede que em outros candomblés, mais respeitadores da tradição nagô, como as do Engenho Velho da Federação e Flaviana, Yemanjá se represente corretamente por pedras (itás) ou por esculturas de pessoas possuídas pela orixá (êxés).

Parece que a notícia mais antiga de presente de Yemanjá é a que nos deixou Manuel Querino: “Um pequeno saveiro de papelão, armado de velas e outros utensílios de náutica, era lançado ao mar, conduzindo como dádiva à mãe-d’água figuras de bonecas de pano, milho cozido, inhame com azeite-de-dendê, uma caneta e pena, e pequenos frascos de perfumaria”. Todos os que já acompanharam um presente para a mãe-d’água notarão a diferença este tipo de oferenda e o modelo atual.

Yemanjá, no país dos nagôs, é a deusa do rio Ogún e, por extensão, dos rios, fontes e lagos nacionais. O seu domínio não chega até o mar, onde manda Ôlôkún. Nina Rodrigues recolheu na Bahia uma peça esculpida, um cofre de Yemanjá, que representa uma cena de pesca do crocodilo, que é animal de rio, e o coronel Ellis, na lenda do nascimento dos orixás, conta que, após o incesto, dos seios desmesuradamente intrumescidos de Yemanjá brotaram dois rios que adiante se reuniram e formaram uma lagoa. Entre os lugares especiais em que, na Bahia, se cultua Yemanjá, estão três lagoas – o Dique e as Lagoas de Vovó e do Abaeté.

Ruth Landes escreveu que Yemanjá é “uma nova edição da mammy americana”. Com efeito, entre os nagôs, a deusa é sempre esposa e mãe. A lenda do coronel Ellis – que Nina Rodrigues considerava “relativamente recente”, por não ser corrente entre os negros da Bahia nem de outros pontos do Brasil – a apresenta como mulher de Aganju, seu irmão, e mãe de Ôrungá, que a violenta, nascendo daí muitos dos orixás, como Xangô, Oxún, Oxóce, Ogún, etc., presentes nas religiões dos negro brasileiro. Ellis decompõe o nome da deusa em yeye, mãe, e ejá, peixe, ou seja: “mãe de peixe”. Ruth Landes lhe dá a posição da “esposa mais jovem e mais amada” de Oxalá – mais jovem em comparação com Nana, já senil. E Nina Rodrigues, estudando uma peça de escultura africana da Bahia – um trono ou banco para o sacerdote possuído por Yemanjá – observou: “No largo movimento das mãos abertas a fim de conter e levantar os volumosos e túrgidos seios da orixá que, para oferecê-los, está de joelhos, o artista expressou com felicidade a concepção da uberdade, de fundo chtoniano ou material, que se atribui a Yemanjá...”

Em que se parece essa Yemanjá com a figura fascinante, voluptosa, encantadora, que ligamos à sereia do folclore europeu?

Se a sereia mora no fundo do mar, Yemanjá habita rios, fontes e lagos. Esta é mãe e esposa, e na lenda do coronel Ellis dá nascimento a muitos filhos, que são os orixás mais conhecidos, em contraposição com a eterna juventude e disponibilidade da sereia, mais fácil de imaginar como uma estranha amante submarina do que como esposa. Maternal, Yemanjá simboliza a fecundidade, a reprodução da espécie, a natureza em todo o seu esplendor, enquanto a sereia é a mulher fatal, que com o seu amor traz a morte. E, para completar o quadro das diferenças, Yemanjá vem ao encontro dos homens, nos candomblés, ao passo que a sereia tem de ser requestada, e solicitada com presentes, nos seus vastos domínios marítimos.

O rabo de peixe, os olhos verdes, os cabelos compridos, as canções irresistíveis de amor, toda a concepção européia da sereia, estão em desacordo com Yemanjá. Sob este nome, nas festas públicas, não se cultua uma deusa africana, da nação nagô. Cultua-se uma divindade brasileira das águas, fruto do sincretismo das concepções nagô, ameríndia e européia dos deuses aquáticos. E, na verdade, a influência maior é a da Loreley dos brancos, que nada mais perdeu do que o nome (1950).

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